sábado, 27 de setembro de 2008

Rhiannon

Cantem os pássaros de ouro.

Tragam esperanças para as almas ocupadas.

Canto em hora a Rhiannon,

Grande Rainha, Deusa do cavalo.

Que minha carga seja leve.

Ajude-me em minhas aflições.

Onde possa haver dúvida,

Semeie a verdade.

Faça com que a crise.

Encontre o seu fim.

Dirija todos passos de nossa vida,

Mãe da Fertilidade e da Morte,

Nos traga a Paz.

Que esta canção lhe seja doce.

Conforte minha alma,

Que minha pena seja breve

E que meu coração permaneça inteiro.

కాన్తెం ఓస్ pássaros దే ఔరో
తరగం

quinta-feira, 6 de março de 2008



RETALHOS DE 08 DE MARÇO

Andava quase cambaleando pela estrada de terra, sob o sol escaldante de meio dia quando alguém a alcança, tocando-lhe o ombro e diz:

- Oi, Litha! Estava na homenagem do Dia Internacional da Mulher?

- Oi, D. Mari! Sim, estava. Todos os alunos da escola foram obrigados a ficar em fila para ouvir o prefeito falar e falar....

- Humm, estou vendo que não gostou.

- Quem gosta de ficar em pé por horas enchendo os ouvidos de discursos ‘gritados’? - ela não gostava de gritos – Salvou apenas a história que a secretária contou, foi interessante. Aquela, do monte de mulheres queimadas dentro de uma fábrica na cidade de Nova York, porque faziam greve... E isso deu origem ao dia da mulher. O que será mesmo que elas faziam? O que é greve?

- Antes, é bom você saber que as mulheres começaram mesmo fazendo sabotagens.

-É outra coisa que não sei o que é.

- Calma. Vou explicar. A sabotagem foi a primeira forma de resistência das mulheres, como elas eram muito exploradas, trabalhavam de quatorze a dezesseis horas por dia, viviam cansadas, exaustas, às vezes morriam ou esmagavam a mão nas máquinas de tanto cansaço. Então encontraram uma forma de fazer as máquinas parar de trabalhar enfiando o tamanco de madeira que elas usavam entre as engrenagens e elas podiam descansar enquanto os patrões procuravam e consertavam o problema. Como a palavra ‘tamanco’ em francês é “sabot” este ato ficou conhecido como sabotagem.

Dependendo do tempo do concerto, as mulheres começaram a conversar, tramar, organizar a resistência e a luta. Um passo para fazer as greves. Que nada mais é do que paralisar. Todo mundo pára de trabalhar ao mesmo tempo. Sem a mão-de-obra, os poderosos patrões perdem lucro e sem lucro são obrigados a escutar o que as proletárias queriam pedir.

- Que legal! É muito bom se organizar. Mas pelo jeito elas não foram ouvidas, foram é queimadas.

- Sei... Vejo também que precisamos melhorar essa história. Venha dormir esta noite, na minha casa que lhe conto como aconteceu, pelo menos alguns pedaços.

- Aff, quisera eu, minha vó não vai deixar. - Foi diminuindo os passos, aproximava-se da casa onde morava.

- Deixa ela comigo. Depois do almoço volto aqui e a convenço. Até logo, menina.

- Tchau, D. Mari.

Ao voltar do seu cochilo, a senhora baixinha e de semblante sombrio encontra Litha sentada no banquinho ao lado da máquina de costura, onde costumava ficar esperando que algum pedacinho de pano caísse para vestir sua boneca. Antes de usar os retalhos sempre perguntava:

- Esse ainda serve, vó?

- Estais doida? Claro que sim. É a gola. Tá mexendo nas minhas costuras, né?

- Não, vó. Caiu no chão.

O diálogo foi interrompido pelo som das palmas vindo da porta da frente. E a velhota reclama como de praxe:

- Quem será essa hora? Só prá atrapalhar minhas costuras, esse povo não tem o que fazer? Vai, menina. Vai ver quem é, e manda entrar.

Litha sai correndo, sabia mais ou menos quem poderia ser, e não se enganou, deu um sorriso de leve e foi logo expondo:

- A vó mandou a senhora entrar, ela está lá na varanda.

A velhinha sacudida pisca para Litha e vai entrando.

- Boa Tarde, D. Quitéria!

- Oh, mas que bons ventos lhe trazem vizinha? Sente-se. Vou passar um café que torrei e pisei no pilão ontem.

- Não, não precisa se incomodar, vim rapidinho lhe pedir um favor.

- Pois então, diga. Os vizinhos servem para ajudar no que podem, não é mesmo?

- É que estou meio adoentada e queria pedir para sua pequena dormir comigo essa noite, caso precise de um chá, sabe como é?

- Sei, sei. Isso só prova que mulher não pode viver sem um homem, D. Mari, devia se casar.

Mari Lofn Schinelo ouvindo isso, era no mínimo ofensivo. Resolve não dá atenção ao comentário machista em prol do seu objetivo naquele momento. Engole seco e calada. Enquanto isso, D. Quitéria prossegue:

- Mas ‘essa ai...’ ? - diz apontando para a menina - Não sei não. É preguiçosa e muito acanhada não gosta de gente. Ela é igual a um trem, não gosta de ninguém. Acho que ela não vai querer ir. – Sabendo a causa do circunlóquio, a pequena Litha interrompe a conversa (o que era considerado falha grave pelos adultos da época).

- Posso ir, sim.

- Vais mesmo? Não vai de noite pedir pra voltar? – perguntou espantada com a resposta, e percebendo que não tinha jeito, concordou. – Então ela vai depois do café. E nós, vizinha? Quando vamos catar goiabas? A safra vai acabar.

- Assim que sarar dessa gripe vizinha, a gente marca. Vou ficar esperando a menina. Até mais.

- Pode esperar, Volte sempre!

A porta azul daquela pequenina casa era um verdadeiro convite para entrar. O cheirinho diferente, mistura de ervas e flores exalava pelo ambiente. A menina era arredia, mas naquele local aconchegante se sentia tão a vontade que foi entrando quietinha e deu de cara com aquela mulher na cadeira de balanço que não lhe causava nenhum constrangimento, nem medo, pelo contrário, parecia uma fonte cheia de conhecimentos a ser bebido. Ficou parada olhando os detalhes da casa... E, parou os olhos na colcha de retalhos que estava sendo tecida sobre o colo daquela artesã.

- Que bom vê-la, menina! Sente-se aqui, pertinho de mim.

A garota foi se aproximando, sentou-se e não resistiu, pegou na colcha para se certificar do que via.

- Tem muita paciência para juntar tantos pedacinhos de tecido e uni-los um a um.

- Isso é como a vida, minha filha. Nós não fazemos nossa vida conforme queremos, não fazemos, nem somos donos dos nossos destinos, dependemos dos retalhos e dos fios a que temos acesso. Todos constroem a colcha da sua vida, mas uns com um único tecido e ai, basta bordá-lo, ou não. Outros precisam juntar quatro ou seis pedaços e, a maioria só encontra pedacinhos tão pequeninos que se não tiver cuidado vai se perder, vai costurar torto, principalmente se a linha que nos é fornecida não for apropriada para seus retalhos, há fios de ouro, de algodão, outros de palha, de plástico, é difícil costurar seda com náilon, por exemplo. Mas se é isso a que temos acesso, fazer o quê? Enfim, a beleza estará na paciência de tecer ou na coragem de alimentar a indignação e reivindicar justas condições para todos.

- Ah, foi essa palavra usada no discurso: as mulheres estavam em greve, pois rei –vi –di... – não conseguira pronunciar a nova palavra.

- Muito esperta você! Elas reivindicavam por melhores condições de trabalho. Mas vamos dar realidade para essa ficção. Essa historinha de 129 mulheres trancadas e incendiadas pelos patrões, no dia 08 de março de 1857, não existiu, ou pelo menos nada comprova tal fato. Essa história foi consolidada entre as décadas de 60 e 70 deste século.

- Então, é tudo mentira?

- Não. Na verdade é uma montagem de várias lutas, inclusive há registros de duas greves, naquela mesma cidade de Nova York, que podem ter sido a base desta historinha fictícia: a primeira foi uma longa greve de costureiras que durou de 20 de novembro de 1909 a 15 de fevereiro 1910, elas lutavam pelo reconhecimento do seu sindicato, o resultado foi uma violenta repressão policial com cerca de 600 pessoas presas.

A outra foi em 29 de março de 1911, também de costureiras. Os jornais dizem que ocorreu um incêndio por motivo das precárias instalações em uma fábrica têxtil. Neste incêndio morreram 146 pessoas, a maioria eram mulheres judias e italianas.

- Não entendo. Se há uma história tão parecida, então por que não se conta a história verdadeira?

- Essa parte é complicada mesmo. Vamos por partes. É bom lembrar que estamos em 1974, o mito já está consolidado desde 1970 e, não se costuma questionar os mitos até porque suas versões são de fáceis de aceitar.

Mas a luta contra a opressão da mulher vem de muito longe e foram entre conquistas e decepções que em meados de 1890, na Alemanha, por exemplo, a bandeira feminista foi erguida por igualdade política, licença-maternidade, legislação de proteção para a trabalhadora, educação e proteção para as crianças e educação política para as mulheres.

Litha esforçava-se para entender, alguma coisa lhe escapava, mas não achava justo interromper aquele momento. Contudo, a explanadora percebia o esforço da garotinha e tentava facilitar com fatos reais e marcantes. Parou a costura por um momento e fitou a menina para atrair sua atenção.

- Mas foi na Rússia que a celebração delas alcançou maior destaque: Foi no dia 23 de fevereiro de 1917, do calendário russo ou chamado calendário juliano (essa data para nós no ocidente corresponde a 08 de março), num lugar chamado São Petersburgo, onde as trabalhadoras têxteis saíram em passeata apedrejaram janelas de outras fábricas para chamar os operários a se juntarem a elas. Com o cordão fortificado levantaram a cabeça e sem medo, gritavam "Abaixo a fome! Pão para os trabalhadores!".

Dizem que um oficial gritou a alguns grevistas liderados por uma velha: - Quem vocês seguem? Vocês são liderados por uma velha bruxa?

A mulher respondeu: - Não por uma velha bruxa, mas pela irmã e mãe de vocês.

Outra gritou: -Vocês são nossos irmãos, vocês não podem atirar em nós.

E eles foram embora.

- Poxa, que legal! Fiquei toda arrepiada parece que eu estava lá.

- Quem sabe!? - Sorriu e continuou para não perder o embalo. - Com a rebeldia delas acendeu-se o estopim da Revolução de Fevereiro, a primeira fase da Revolução Russa. E isso está comprovadamente nos escritos de Leon Trotsky e Alexandra Kollontai.

A luta das feministas trabalhadoras segue até os anos 30, quando chega o furacão da 2ª Guerra Mundial, e muita coisa se perde, dentre elas o Dia Internacional da Mulher. Passados quase 30 anos é que se volta a falar do evento. Quem é que queria lembrar mais do dia 08 das russas? A União Soviética stalinista não queria. O capitalismo seja na versão americana ou na versão social-democrata européia, mesmo para muitos comunistas não interessava mais, estavam anestesiados pelo desencanto e pelo terror stalinista, todos tinham interresses em ocultar o fato ocorrido na Rússia.

Além do mais veja quanta coisa vem acontecendo nessa ultima década:

· Os Estados Unidos mandaram o homem americano à Lua e ainda vence o bloco soviético (socialista) impondo o sistema capitalista no ocidente.

· O povo da Argélia vencendo a França:

· China com a Revolução Cultural;

· Revolução Cubana conduzida por Fidel e Che, que de uma forma ou de outra se tornaram espelho de revolução na América Latina;

· Igreja católica com o pé na teologia da Libertação (oprimidos acima dos seus senhores);

· Os hippies pregam a paz o amor e a liberdade;

· Guerrilhas contra ditadores, na América Latina;

· Centenas de milhares de mulheres americanas contra a guerra do Vietnã.

· Descoberta da pílula para não engravidar nos EUA e Europa;

· Mulheres do 3º Mundo usando metralhadoras;

· Aqui no Brasil se fala de revolução social e sexual.

Um verdadeiro caldeirão mundial onde as coisas estão fervendo, E em todas as lutas a mulher está ativamente presente. Assim, foi chegando o momento em que a ressurreição do Dia Internacional da Mulher torna-se essencial, mas não importava os detalhes. E se consolidou da maneira como ouvimos hoje pela manhã.

- Nossa! Que confusão.

- São os retalhos que precisam ser juntados para poder ser compreendido, Litha. Digo-lhe ainda, nada do que eu disse é para ser levado a ferro e fogo, e sim para fomentar em você a fome do conhecimento, para buscar outras leituras, como O Manifesto Comunista, de Karl Marx; A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado de Engels; Direito à Preguiça de Paul Lafargue; e muitos outros autores que virão, na década de 80, Renée Côté falará sobre as várias razões de esconder os fatos verídicos do Dia 08 de Março. Aos poucos as peças vão se encaixando.

- Como a senhora sabe tanta coisa!? Já leu todos esses livros? Tem um que ainda nem existe?

- Não, não os li, nem os tenho. Além de caros, foram proibidos, censurados. Mas tive acesso a algumas pessoas maravilhosas que cruzaram minha vida, meu avô Edmilson, minha avó Lofn e tantas outras mestres Lena, Terezinha, etc. Essas bruxas e este bruxo atravessaram a minha vida e deixaram retalhos importantes para conhecer outras mulheres fortes como Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo e inúmeras guerreiras revolucionárias.

- As mulheres têm um papel importante nas revoluções!

- E muito, minha querida. Mas vai demorar isso ser reconhecido. Preferem fazer um mito de que mulheres morreram nas mãos dos patrões do que admitir que elas são fortes e guerreiras...

-Mas muitas morreram.

- Sim, sim, minha Cara! Muitas morreram. O que eu quero dizer é que romantizam a luta feminista socialista para esconder a força da mulher. Vejamos um exemplo claro, diga-me como foi comemorado este dia tão especial para nós.

- Distribuindo uma rosa para algumas mulheres e com discurso compriiiido que ninguém nem entendeu.

- Está vendo? É utilizando-se da sensibilidade que eles quebram a força feminista. É maravilho ganhar uma flor, mas neste caso isso é uma camuflagem, nem há carinho verdadeiro nelas. É preciso duvidar das manifestações de carinho do sistema capitalista. Você lembra alguma coisa que o prefeito disse?

- Só que as mulheres deveriam ser bem tratadas, pois elas foram as escolhidas para serem mães e ser mãe é divino, maravilhoso.

- Exatamente. A maternidade é usada como ‘o divino’, o imaculado que deve ficar em casa guardada, aparentemente protegida. Isso se fortaleceu com o significado social da Maria mãe de Jesus, atribuindo o seu exemplo de mulher. Trata-se de uma mulher que vive em função do filho e é o significado da pureza. Porém isso virou pretexto para criar gerações de mulheres que são subjugadas e consideradas acéfalas. Além de filhos que ajudam a conservar as mães em casa numa redoma de vidro. Engels afirmava que as mais exploradas são as mães. A bondade maternal a deixa obediente ao marido e obediência é tudo que não precisamos. O que precisamos é aprender a nos indignar, a levantar, a lutar contra qualquer opressão. Alguém fez uma homenagem à Clara Zetkin? Á Rosa Luxemburgo? Alexandra Kollontai? Não. Eles querem mais esquecer que elas existiram, mas nós não podemos deixar. E não são apenas estas, vou lhe dar o nome de algumas mulheres brasileiras que lutaram aqui mesmo no Brasil, e infelizmente elas serão esquecidas. Um dia, se você puder, dependendo dos retalhos que você receber desta vida, sei que fará uma homenagem a elas. Sugiro uma grande comemoração o ano do centenário de Olga Benário Preste (12/02/2008), desta você ainda vai ouvir falar, não tanto quanto merecia, mas no século XXI se falará dela.

E com um semblante triste a velha contadora de histórias tira debaixo da colcha uma folha de papel e entrega para a menina que pega curiosa e começa a ler o que se intitulava:

Algumas Mulheres que se dedicaram à luta da libertação do povo:

1. Marilene Vilas-Boas Pinto – ferida e sem cuidados médicos foi conduzida às câmaras de tortura do DOI/CODI-RJ e assassinada horas depois.

2. Yara Yavelberg – psicóloga e professora 29 anos, suicidou-se em 20/08/71 ao resistir à prisão.

3. Aurora Maria do Nascimento Furtado – estudante de psicologia da USP, levada para a Invernada de Olaria–RJ, barbaramente torturada e morta.

4. Maria Regina Lobo Leite Figueiredo – Formada em Filosofia, ferida, torturada e morta pelo DOI/CODI-RJ

5. Anatalia de Souza Alves de Melo – presa violentamente torturada no DOPS-Recife para fugir das torturas suicidou-se ateando fogo em seu corpo.

6. Soledad Barret Viedma – grávida de sete meses, foi assassinada sob tortura.

7. Margarida Maria Alves – trabalhadora rural e presidente do sindicato dos trabalhadores rurais, na Paraíba. Foi assassinada.

8. Maria Auxiliadora Lara Barcellos – após torturada e obrigada a testemunhar a tortura e morte do seu companheiro, foi exilada e suicido-se.

9. Isis Dias de Oliveira – estudante da USP, presa pelo exercito, no Rio de Janeiro e não se teve mais notícias dela.

10. Suely Yomiko Kanayama, 22 anos – professora e estudante da USP, ferida em combate na Guerrilha do Araguaia e metralhada em 1974.

A Lista era enorme e com a leitura sofrível, Litha desistiu e apenas correu os olhos por toda a página frente e verso, dobrou-a cuidadosamente e guardou no bolso.

- Lembre-se que não importa mais se o dia escolhido foi o certo, mas que ele existe e pode ser usado com objetivo especifico de promover, discutir, debater propostas e claro de homenagear aquelas que deram a própria vida para que a luta tivesse o ponto de partida, e lembrar que o caminho continua e precisa ser trilhado.

No ano que vem 1975, a ONU decretará a Década da Mulher e daí por diante mito das 129 mulheres se espalhará. – impressionante como o fato da D. Mari falar do futuro não intrigava a criaturinha curiosa e nem duvidava de nada.

- Então não devemos lutar contra esse mito?

- Não. O objetivo não é lutar para derrubar o mito da origem, da data ou do fato, não vai adiantar desvalorizar o significado histórico que este adquiriu. Todavia, sempre que possível devemos retomar a verdade dos fatos que são suficientemente ricos de significados e que carregam toda a luta da mulher no caminho da sua libertação.

- D. Mari, eu tenho medo de não conseguir o que me pede. E se eu não for capaz?

- Não tema. Sei que se a vida lhe oferecer os retalhos certos e suficientes você o fará. Olhe para mim. – ordenou a mulher levantando o tórax - Eu não consegui muito, você acha que eu sei muita coisa, mas é muito pouco e a vida me deu você e dará a você um livro a mais dos que eu já li, dará outras oportunidades que podem ser poucas, mas você fará o que pode ser feito. O importante é como dizia minha vó Lofn “Avançar sem medos e sem vergonhas pelas derrotas sofridas pelas revoluções perdidas, rumo à conquista da libertação total das mulheres. Sem medo de levantar as bandeiras vermelhas da luta pela libertação da humanidade”.

- Bandeiras Vermelhas? As que tinham lá no palanque eram lilás!!??

A velha Mari sorriu e exclamou:

- Você é realmente especial! Mas a história das cores da bandeira eu conto amanhã. Agora vamos dormir que já é bem tarde.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Continuação do "Salva-se a Vida ou salva-se o Sofrimento?"


Após Litha ter me deixado num profundo silêncio, levantei, pegue o jornal de modo que caiu uma folha e nela havia uma crônica intitulada:

"SERÁ QUE EU ESCAPO DESSA?"

Doutor, agora que estamos sozinhos quero lhe fazer uma pergunta: "Será que eu escapo dessa?" Mas, por favor, não responda agora porque sei o que o senhor vai dizer. O senhor vai desconversar e responder: "Estamos fazendo tudo o que é possível para que você viva." Mas, neste momento, não estou interessada naquilo que o senhor e todos os médicos do mundo estão fazendo. Olhe, eu sou uma mulher inteligente. Sei a resposta para minha pergunta. Os sinais são claros. Sei que vou morrer.

O que eu desejo é que o senhor me ajude a morrer. Morrer é difícil. Não só por causa da morte mesma, mas porque todos, na melhor das intenções, a cercam de mentiras. Sei que na escola de medicina os senhores aprendem a ajudar as pessoas a viver. Mas haverá professores que ensinam a arte de ajudar as pessoas a morrer? Ou isso não faz parte dos saberes de um médico? Meus parentes mais queridos se sentem perdidos. Quando quero falar sobre a morte eles logo dizem: "Tira essa idéia de morte da cabeça. Você estará boa logo..." Mentem. Então eu me calo. Quando saem do quarto, longe de mim, choram.

Sei que eles me amam. Querem me enganar para me poupar de sofrimento. Mas são fracos e não sabem o que falar... Fico então numa grande solidão. Não há ninguém com quem eu possa conversar honestamente. Fica tudo num faz de contas...

As visitas vêm, assentam-se, sorriem, comentam as coisas do cotidiano. Fazem de contas que estão fazendo uma visita normal. Eu me esforço por ser delicada. Sorrio. Acho estranho que uma pessoa que está morrendo tenha a obrigação social de ser delicada com as visitas. As coisas sobre que falam não me interessam. Dão-me, ao contrário, um grande cansaço. Elas pensam que estou ali na cama. Não sabem que já estou longe. Sou "uma ausência que se demora, uma despedida pronta a cumprir-se..." Remo minha canoa no grande rio, rumo à terceira margem. Meu tempo é curto e não posso desperdiçá-lo ouvindo banalidades. Contaram-me de um teólogo místico que teve um tumor no cérebro. O médico lhe disse a verdade: "O senhor tem mais seis meses de vida..." Aí ele se virou para sua mulher e disse: "Chegou a hora das liturgias do morrer. Quero ficar só com você. Leremos juntos os poemas e ouviremos as músicas do morrer e do viver. A morte é o acorde final dessa sonata que é a vida. Toda sonata tem de terminar. Tudo o que é perfeito deseja morrer. Vida e morte se pertencem. E não quero que essa solidão bonita seja perturbada por pessoas que têm medo de olhar para a morte. Quero a companhia de uns poucos amigos que conversarão comigo sem dissimulações. Ou somente ficarão em silêncio."

Enquanto pude, li os poetas. Nesses dias eles têm sido os meus companheiros. Seus poemas conversam comigo. Os religiosos não me ajudam. Eles nada sabem sobre poesia. O que eles sabem são doutrinas sobre o outro mundo. Mas o outro mundo não me interessa. Não vou gastar o meu tempo pensando nele. Se Deus existe, então não há por que me preocupar com o outro mundo, porque Deus é amor. Se Deus não existe, então, não há por que me preocupar com o outro mundo porque ele não existe e nada me faltará se eu mesmo faltar. Ah! Como seria bom se as pessoas que me amam me lessem os poemas que amo. Então eu sentiria a presença de Deus. Ouvir música e ler poesia são, para mim, as supremas manifestações do divino.

A consciência da proximidade da morte me tornou lúcida. Meus sentimentos ficaram simples e claros. O que sinto é tristeza porque não quero morrer e a vida é cheia de tantas coisas boas. Um amigo me contou que sua filha de dois anos o acordou pela manhã e lhe perguntou: "Papai, quando você morrer você vai sentir saudades?" Foi o jeito que ela teve de dizer: "Papai, quando você morrer eu vou sentir saudades..."

Na cama o dia todo fico a meditar: "Nas escolas ensinam-se tantas coisas inúteis que não servem para nada. Mas nada se ensina sobre o morrer." Me diga, doutor: O que lhe ensinaram na escola de medicina sobre o morrer? Sei que lhe ensinaram muito sobre a morte como um fenômeno biológico. Mas o que lhe ensinaram sobre a morte como uma experiência humana? Para isso teria sido necessário que os médicos lessem os poetas. Os poetas foram lidos como parte do seu currículo? Nada lhe ensinaram sobre o morrer humano porque ele não pode ser dito com a linguagem da ciência. A ciência só lida com generalidades. Mas a morte de uma pessoa é um evento único, nunca houve e nunca haverá outro igual. Minha morte será única no universo! Uma estrela vai se apagar.

Nesse ponto seus remédios são totalmente inúteis. O senhor os receita como desencargo de consciência, para consolar a minha família, ilusões para dizer que algo está sendo feito. O senhor está tentando dar. Não devia. Há um momento da vida em que é preciso perder a esperança. Abandonada a esperança, a luta cessa e vem então a paz.

E agora, doutor, depois de eu ter falado, me responda: "Será que eu saio dessa?" Então eu ficarei feliz se o senhor não me der aquela resposta boba, mas se assentar ao lado da minha cama e, olhando nos meus olhos, me disser: "Você está com medo de morrer. Eu também tenho medo de morrer..." Então poderemos conversar de igual para igual.

Mas há algo que os seus remédios podem fazer. Não quero morrer com dor. E a ciência tem recursos para isso. Muitos médicos se enchem de escrúpulos por medo que os sedativos matem. Preservam a sua consciência de qualquer culpa e deixam o moribundo sofrendo. Mas isso é fazer com que o final da sonata não seja um acorde de beleza mas um acorde de gritos. A vida humana tem a ver com a possibilidade de alegria! Quando a possibilidade de alegria se vai, a vida humana se foi também. E esse é o meu último pedido: quero que minha sonata termine bonita e em paz. Morrendo...

Rubem Alves*

Por que será que se negam a ouvir os envolvidos da situação?

Por que as instituições têm que resolver da forma que lhes convém e a história de cada um é simplesmente anulada?

Por que o poder dá força para ordenar e essa, vira sinônimo de proibir?

Por que deixamos empurrar tudo pela nossa goela abaixo?

Por que você foi embora, Litha? Sinto-me tão só...

*Rubem Alves escreve habitualmente na Folha de S.Paulo e no Correio Popular, de Campinas.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Salva-se a Vida ou Salva-se o Sofrimento?

Após o Carnaval, o Brasil recebe a diretriz da igreja católica para ser seguida, a chamada ‘Campanha da Fraternidade 2008’ Exibindo como tema ‘Fraternidade e Defesa da Vida’ e junto vem um Lema ‘Escolhe, pois, a vida (Dt30,19)’. Referindo-se a proibição ao aborto, à eutanásia, a métodos anticoncepcionais, etc. Colocando-se antagônico à morte.

Esse assunto não é novo e muito menos fácil de digerir.

Andava pela areia da praia com um jornal na mão, vi um rochedo e devagar o escalei, sentei e permitir que os pensamentos vagassem desarmados, sem preconceitos, sem dogmas, desnudo de qualquer juízo moral pré-estabelecido ao longo de minha vida. Inesperadamente Litha estava presente. Tão presente que podia sentir sua cabeça recostada no meu ombro, como costumávamos ficar horas e horas conversando. Quase chorei sentindo seu cheirinho de alfazema, mas preferir segurar a emoção com medo que aquele momento mágico desaparecesse, fiquei ali imóvel, quase nem respirava. Mas, para minha surpresa ela começa a falar como se nunca tivesse saído de perto de mim e como estivesse dando continuidade a um diálogo já iniciado e isso me fez relaxar.

- Sou uma Bruxa. E não fico muito a vontade para falar de morte, já que a morte foi tão presente durante toda minha existência. E também porque, ao contrário do que dizem e pensam os menos esclarecidos, as bruxas não gostam e, muito menos provocam mortes. Mas você tem razão, é necessário desmistificar e falar sem medo dos julgamentos e condenações, inclusive dos nossos próprios amigos. A compreensão sobre a morte e a vida não se dará numa única leitura. Afinal os conceitos e valores sobre vida, deus, justiça transpassa por uma formação sócio-cultural-econômica históricamente referendada por mistificações religiosas.

- Ah, minha querida bruxinha! Preciso pelo menos indagar: Até onde vai o direito da sociedade institucionalizada de manipular a vida humana, com o discurso de proteção?

- Realmente é sufocante não gritar... Agora estão falando em proteção, a um tempinho atrás o Estado Ateniense decidiu pela vida de Sócrates com um bom porre de cicuta, pois ele cometeu o pecado de ter idéias à frente do seu tempo.

-- Amiga, vamos combinar que faz mais que um tempinho. – sorrindo acolhi sua cabeça com uma mão e lhe beijei os cabelos – as bruxas perdem um pouco da noção de tempo. – rimos um pouco e eu continuei - Mas tem toda razão, o coitado do Galileu Galilei encontrou outro centro para o universo e isso o levou a uma perseguição pelo Santo Ofício, ficou proibido de continuar a defender o sistema copernicano. Humm! O danadinho desobedeceu mas, se deu mal, foi novamente processado e foi condenado ao cárcere, podar a potencialidade de um ser pensante é uma verdadeira morte em vida.

- Algo parecido fez o Estado Romano com Jesus, suas idéias incomodavam e pregá-lo numa cruz parecia bem razoável.

- O que mais chama atenção é que em todos os casos o Estado estava irmanado com a instituição religiosa vigente, e que representava deus na Terra. Tudo era feito em nome de deus.

- É, meu caro. Em nome de deus se faz coisas que até esse Altíssimo duvida. - Novamente rimos, não dá para ficar muito tempo sério perto dela. Assim como, não dá para ficar sem se emocionar, do riso ela sabe levar às lágrimas. Como fez ao prosseguir:

Não vê as santas cruzadas? Quantos jovens foram mortos... Em nome de deus caçaram e exterminam aproximadamente nove milhões de pessoas da população rural, 80% mulheres, o restante dos 20% encontrava-se muitas crianças e jovens, todas chamadas de bruxas que foram cruelmente mortas sem piedade. Até hoje sofremos perseguições...

A jovem se entristeceu de tal forma que chegou a comover as maria-farinhas que pararam de cavar seus buraquinhos na branca areia ali ao lado da nossa pedra. Tomei a frente para que ambos não chorássemos lembrando das torturas.

- Então. São os mesmo que hoje em dia querem influenciar na liberdade das pessoas sobre suas vidas, seus corpos. Veja esse artigo, - ofereci o jornal já com a pagina dobrada, mas lembrei que ela tinha certa dificuldade para ler, dizia que as letrinhas dançavam, deixando sua leitura lenta, e para não constrangê-la eu voltei atrás, - deixa que eu mesmo faço isso, só escuta:

“ ... Giovanni Nuvoli que padecia de esclerose lateral amiotrófica que em Abril passado pediu que lhe dessem um sedativo e desligassem o respirador, sobre o qual dependia a manutenção da sua vida. No início de Julho quando os preparativos da "boa morte" acabaram o anestesista foi impedido pelos carabineri (policia italiana) de principiar o processo de "morte assistida". Giovanni inconsolável e frustrado pelo o continuar da sua vida penosa , decidiu enveredar pela "eutanásia passiva" e iniciou uma greve

de fome e de sede, falecendo Quarta-Feira passada de uma forma indigna por decisão estatal inconsiderando a sua consciente razão.”

- Repito o que Legião Urbana cantava com maestria "Viver é foda, morrer é difícil" Alegre-se companheiro! Você vive num mundo civilizado - Cautelosa vira-se e abraça as penas olhando a imensidão do mar e solta uma gargalhada ironicamente gostosa, uma das suas características e, eu a acompanho, mas na verdade nem queria rir de tal mentira, desde quando proibir é sinal de civilização?

- Preocupa-me um Mundo onde o Proibir é a saída aos males?

- Onde está minha bola de cristal?

- Para quê você quer sua bola de cristal, Litha?

- Fácil, façamos uma consulta e mostramos qual a vontade da divindade. Não é essa questão? O que deus quer?É melhor assim do que tentar adivinhar como eles fazem, ora são pela morte noutra pela vida. Ou estaríamos cometendo o pecado da soberba deliberando saber o que deus pensa? Só eles podem definir a vontade de Alá? Os seguidores são acéfalos que não podem ler, pensar, analisar, refletir e ter decisões próprias? Poderíamos perguntar que tipo de vida, em nome de deus, devemos adotar?

- Querida, você acha que esse deus está preocupado em proibir a evolução da ciência? De favorecer uma gama enorme de pessoas desejosas pela restauração de uma vida digna, que sonham em voltar a andar, de vencer uma doença terminal, etc.?- Por que usar ovos (óvulos e espermatozóides) para pesquisa não é da vontade de deus? Um ovo é uma vida... E Galileu não era? E Joana D’arc? Há hora para matar e hora para salvar?

- Engraçado como ninguém é contra o alistamento de jovens para (morrer em guerras) servir à pátria? Alguém se responsabiliza pelas crianças e pelo povo em geral da Etiópia e em todos os paises onde a miserabilidade é gritante? Essas vidas são menos importantes que ovos?

- Imagine, eles só querem mostrar quem manda, quem manda na Vida!!! Vida sem condições sociais e potenciais são vidas? Alguém vai salvá-las? Se houvesse alguma preocupação real com a vida, como um bem fundamental, Litha, essas instituições governamentais e religiosas estariam cuidando para que todas as vidas tivessem acesso a trabalhos decentes, educação abrangente e de qualidade, estruturas de moradia, saneamento, alimentação, cultura e a preciosa política de atenção à saúde, oferecida igualmente e, para todos: desde a atenção básica até recursos de alta complexidade, bem como assistência dos trabalhadores em saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, odontólogos, etc.) de forma a assegurar dignidade de vida em todas as suas dimensões humanas. Se tudo isso fosse oferecido e mesmo assim a pessoa patológica ou não, preferisse a morte que fosse respeitada e garantida uma boa morte – a eutanásia.

- Bem informado, esse meu amigo!!! – Brincou, olhando para mim com tanto carinho e orgulho que o assunto pesado foi perdido diante da revoada de paz, também diante do reflexo daquela água azul e cristalina se movendo em seus olhos até uma rocha se derreteria, mas ela nunca deixa nada derreter e me tira daquele quadro iluminado - Que sabe mais da eutanásia ?

- - E-U-T-A-N-Á-S-I-A - repeti soletrando - Termo por muitos temido ou odiado, na sua origem grega esclarece a que veio - "Eu" significa Boa e "Thanatos" significa Morte. Portanto, o que deveria ser pensada como a dignidade, piedade, altruísmo, e caridosa passagem para a morte carrega a pena de trucidamento, maldade e pecado como se fosse o demonio do século , o bicho papão. Li em algum lugar que a eutanásia entre a classe jurídica, é receiada por ser estímulo a assassinatos por conta de heranças ou mesmo por crueldade. Como se isso já não acontecesse mesmo sem a eutanásia . E mesmo que fosse o caso de relevância cabe a eles assumirem seu papel e trabalhar como se deve e não proibir um bem para evitar um mall. Pelos tramites da legislação, e judiciário a vida torna-se mais um valor de troca do que de sentimentos humanos definindo-se quem deve viver sofrendo as dores deste mundo ou quem deve morrer esperando numa fila de hospital. Se optaram por defender a vida, então que sejam coerentes que defendam a vida e não o sofrimento.

- No entanto, na forma de sociabilidade que acreditamos, por ser justa e igualitária, a humanidade nem precisaria travar este debate. ela se iluminava quando falava de socialismo - Mas por falar em filas de hospitais, lembrei das limitações na medicina em aceitar como responsabilidade médica a tarefa de causar a morte, pelo juramento proferido de proteger e preservar a vida. Preservaria muito mais se legitimassem uma morte descente. Claro, é preciso ressaltar que Eutanásia no Sistema Único de Saúde é impensável, eles já ‘matam’ ali sem eutanásia e pior, ‘matam’ a quem não quer e não precisaria morrer.

- Assim a classe dominante exerce seu poder de decisão sobre a vida da classe dominada. Você sabia que já existe, faz tempo, a eutanásia como morte digna? Besteira minha. Claro que você sabe... é a eutanásia que traz consigo o debate "ético" de seu uso, exclusivamente restrita a burguesia dos paises desenvolvidos. Paises que levam em conta as potencialidades humanas como sendo inerentes à vida. E não significam alguns órgãos funcionando como vida. Coisas de primeiro mundo...

- Enquanto que a classe menos favorecida, pouco instruída e por isso, de fácil manipulação são os que, por deleite pessoal, preferem manter seu ‘peixinho no aquário’, para visitar seu ‘bichinho de estimação’. Sem se importar com a dor de incapacidade do outro. Tubos entrando e saindo mais se aproximam a uma máquina manipulável, regulada por botões do que a um ser vivo.

- É isso: Salva-se a vida ou salva-se o sofrimento? Enquanto as religiões que poderiam ser revestidas de piedade e defender a dignidade da vida, 'para que todos tivessem vida e vida plenamente, em abundancia', pregam o pecado. Se contradizendo entre o pai amoroso e o padrasto vingativo. Se a existencia desse deus fosse verídica certamente ele seria bondoso e não suportaria ver seus filhos padecendo, não concordaria com sofrimentos penosos e inuteis que degradam a vida. Se for o contrário, se ele não concordasse com a evolução da medicina todos que fizeram transfusão de sangue, doação de um rim para um parente, e tantas outras coisas arderam no fogo do inferno... Mas é assim... impondo o medo e o pecado que as religiões sobrevivem controlando a vida e a morte, e o povo acredita em tudo na espera da eternidade de seus antes queridos, coitados já acreditaram até que deveriam pagar para conseguir um lugar no céu, bem que dizia Marx “Religião é o ópio do povo”.

Meio que cansados de procurar respostas, deitamos na pedra deixando que o sol banhasse nossos rostos esquentando nossas peles. Em questão de minutos o rostinho dela já estava rosinha, quando percebeu que era observada, conclui segurando minha mão:

- Abominamos a época vivida por Galileu, que para escapar da fogueira teve que proclamar publicamente que sua verdade eterna era mentirinha e de tantos outros iluminados que, para escapar de fogueiras, excomunhões, inumeras torturas, tiveram que renegar suas verdades, desdizer suas certezas , mas abominamos também as proibições que nos prendem a uma vida não desejada, abominamos o sofrimento desnecessário, de qualquer natureza, para um ser humano. - Com o olhar longe respira fundo e continua. - Isso é o que obriga alguns a cometerem suicídio, absolutamente sozinho, cheio de medos, entre dores e agonia, cruelmente sem ser assistido, sem dignidade. - Suspirou novamente e pôs fim ao assunto. - Essa é a única forma de ninguém ser punido, uma vez que o indivíduo não existirá para receber a pena máxima. Por ser a favor da vida, sou a favor da eutanásia, dos métodos contraceptivos, e do aborto.

Silenciamos pensativos, entrei num quase sono e ao longe ouvi aquela doce voz se despedindo assim:

- Convidar-lhe-ia a mergulhar comigo no mar. Mas é melhor que fique mais um pouco mergulhado em teus pensamentos...

Quando abrir os olhos estava só. Novamente estava sozinho diante da imensidão do mar, com tanta coisa para pensar, apenas me perguntava se ela ia voltar...